Exposição 3 de Junho a 17 de Julho de 2007 | ||
Mais uma Lenda da Aldeia da Senhora do Forte “A
História da Senhora do Forte”
contada por Pedro Reis e
ilustrada por Tolentino de Lagos
A Aldeia da Senhora do Forte,
a que esta lenda pertence, está a comemorar o 14º aniversário da sua
inauguração, culminando com uma tradicional Festa, que decorrerá no
Museu de Lagos, no dia 23 de Junho. A Aldeia pode ser vista no
Museu Municipal Dr. José Formozinho, em Lagos, de terça a Domingo e a
exposição “História da
Senhora do Forte” pode ser visitada, de segunda a sábado, das 10
às 15 e das 19 às 23 horas, na galeria restaurante Artebúrguer, entre
o parque de estacionamento e a igreja, na Vila da Luz. Os
desenhos agora apresentados são, uma vez mais, de Tolentino de Lagos e
destinam-se a ilustrar o livro que será lançado durante a tradicional
Festa de Aniversário da Aldeia
da Senhora do Forte, que este ano volta a iniciar-se com esta exposição.
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Catálogo
Texti (excertos) de Pedro Reis
Desenhos de Tolentino de Lagos
“Naufrágio
e Promessa”
Numa
manhã de Fevereiro do ano de 1496, da Praça Portuguesa de Ceuta, no Norte de
África, rumo a Lisboa, partiram por mar, num pequeno barco de vela, seis jovens
que pertenciam à guarnição da referida Praça e cujas idades rondavam os
vinte e três anos, a fim de se apresentarem a El-Rei D. Manuel I, oferecendo-se
como voluntários na expedição marítima à Índia que este monarca já começara
a preparar.
O
vento progressivamente aumentava de intensidade e, agora, as coisas estavam a
tornar-se mais sérias. Entretanto, sofreu de novo outra rotação, passando
desta feita a soprar de Sueste e trazendo com ele enormes massas de nuvens, atrás
das quais, durante a noite, a Lua cheia parecia correr pelos céus e sorrir para
tudo quanto se passava diante de si.
Aguentando
sempre a sua embarcação o melhor que podiam, aqueles navegantes empregavam
todo o seu esforço para se livrarem de tal borrasca. A chuva fazia a sua aparição
e alguns relâmpagos, seguidos de enormes trovões, tornavam mais apavorante a
viagem já bastante atribulada.
Uma
vaga maior vira-lhes o barco e eles, aos gritos e pedindo auxílio a Deus, começaram
a sua luta contra as vagas alterosas!
Claro
que, entre seis homens, há sempre um mais forte e, neste caso, esse homem
chamava-se Pero de Paiva que, tentando animar os seus companheiros, incitava-os
a nadarem com mais força e a terem Fé e coragem, mas, um a um, foram deixando
de ouvir-se e, então, apercebendo-se do que lhes sucedera, apegou-se à Virgem
e, no meio da sua aflição, prometeu-Lhe, caso fosse salvo por Sua intercessão,
que mandaria erigir uma capelinha em Sua honra, perto do local onde porventura
dessa à costa. Formulada a promessa, parece ter redobrado as forças e por
entre vagas enormes, já quase de noite, Pero de Paiva foi arrastado por uma
vaga maior que o enrolou e o lançou pelo areal, deixando-o em seco sobre umas
dunas.
Enrolado
sobre o seu próprio corpo, ali ficou até o dia clarear,
e foi então que começou a percorrer a zona, para se aperceber melhor da sua
localização. Viu que estava numa praia, não muito grande, cujo areal
continuava para nascente e cujos rochedos se erguiam para poente. Andando mais
alguns metros para leste verificou que ali desaguava uma ribeira.
Passados que foram uns minutos, ouviu os passos de um cavalo e foi
então que viu um homem bem vestido, montado num alazão,
que, parando ao pé dele, lhe disse:
– Quem sois e o que fazeis aqui, meu jovem, com tempo tão
chuvoso e vento tão brutal?! – Ele então erguendo-se, respondeu-lhe:
–
Senhor, sou Pero de Paiva e venho da Praça de Ceuta.
– Ah, meu senhor! Foi desígnio de Deus ter-vos encontrado!
–
Então vem. Toma esta manta, sobe para o meu cavalo e partamos, pois lá terás
comida, cama, conforto, amigos, auxílio e licença para mandares erigir a
capela em cumprimento da tua promessa. Podes estar certo disso.
Disse então Pero de Paiva:
–
Nunca pensei, ó Lagos, que passaria hoje pelas tuas ruas, montado num cavalo!
Ontem esperava entrar no teu porto, em barco de vela, entre tormenta feroz, hoje
aqui me tens, mas liberto do mar!
Pero
de Paiva ficou desde o primeiro dia sob a protecção das autoridades locais.
Para o Rei também foi uma mensagem a narrar o acontecimento e D. Manuel I
mandou uma carta a agradecer o préstimo do jovem, por se ter oferecido para
servir a primeira Armada à Índia, lamentando simultaneamente a morte dos seus
cinco companheiros, elogiando a coragem do sobrevivente, desvinculando-o de
todas as obrigações militares e ajudando-o monetariamente na construção da
capela, pois o Rei achou que ele deveria ficar, para poder cumprir a sus
promessa. Também a Igreja autorizou a construção da mesma, sob a invocação
da Virgem, tendo ela tido início cinco meses depois, ou seja em Julho de 1496,
dando-se, com isto, cumprimento à promessa de Pero de Paiva.
Depois
da construção da capela, Pero teve permissão para construir a sua própria
casa ao lado da dita capela, onde passou a viver. Embora distanciado uns quantos
quilómetros da Vila, estava sempre em contacto com esta, pois era frequente a
sua presença aí. Dois anos mais tarde, Pero de Paiva apaixonou-se por uma
rapariga daquela localidade e casou-se. Deste matrimónio nasceram três filhos.
Dois rapazes e uma rapariga. Todos eram estimados e respeitados.
Em volta destas primeiras construções, mais se foram fazendo e
mais pessoal ali passou a viver.
Como
as festas cada vez metiam mais gente e a capela se tornava pequena, então a
Diocese, a pedido da população e mercê de várias ajudas do Povo, autorizou
em 1828 a construção, noutro lugar, de uma igreja maior, com instalações
contíguas, chamada “Igreja do Bom Jesus dos Navegantes”, em cuja capela-mor
existe um quadro a representar Jesus e os Apóstolos, numa barca, a acalmar a
tempestade no mar de Tiberíades ou Lago de Genesaré.
Pero
de Paiva, que faleceu em 1535 e que, depois de se ter fixado no local se dedicou
à actividade marítima, apesar de lhe terem sido oferecidos vários outros
modos de vida, fez desenvolver o interesse pela pesca de muitos rapazes da zona,
que não tinham grande vocação para seguir esta forma de ganhar o seu
sustento, como muitos da vila o fizeram, tendo esta lide sido continuada até
aos nossos dias, na aldeia da Senhora do Forte.
Voltando um pouco atrás e reportando-me à época em que se deu a
fundação e primeiro desenvolvimento da aldeia, o seu fundador Pero de Paiva
escreveu toda a história passada, até à altura aproximada da sua morte, em
1535, como acima foi referido. Estes documentos foram arquivados no Castelo dos
Governadores da então Vila de Lagos e uma cópia desta história é a que se
encontra exposta no Museu Municipal de Lagos, hoje cidade e que serve de
consulta para quem se interessa por estes assuntos culturais. Quanto ao
original, esse perdeu-se através dos tempos.
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Mais coisas há a dizer sobre a aldeia da Senhora do Forte, mas as suas características permitem uma descrição à parte desta e a qual podeis igualmente consultar.
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Organização de Cristiano Cerol